O apelo por ajuda do governo grego está colocando a chanceler alemã Angela Merkel
sob pressão. Enquanto a Alemanha é solicitada a fornecer bilhões de euros nos
próximos anos para financiar o bailout (operação de salvamento financeiro) da Grécia,
crescem os apelos no governo alemão para que a Grécia seja excluída da zona do
euro
Wolfgang Schäuble está com uma aparência pálida. A face dele parece contraída e o
seu terno cinza está meio largo sobre os seus ombros estreitos. Após passar oito
semanas no hospital devido a uma incisão feita em uma cirurgia anterior que não
cicatrizou de forma apropriada, o ministro alemão das Finanças parece cansado e
emaciado.
Isso foi no início da semana passada, e Schäuble estava passando informações aos
especialistas financeiros do governo da coalizão alemã de centro-direita formada pelo
Partido Democrata-Cristão (CDU/CSU) e o Partido Democrático Liberal (FDP) a
respeito dos últimos desdobramentos da crise grega, que vem se intensificando
semanalmente durante os últimos seis meses.
Schäuble informou aos membros do parlamento que agora ficou bem estabelecido
que Atenas poderá solicitar assistência financeira junto ao Fundo Monetário
Internacional (FMI) e à União Europeia. Mas ele acrescentou que ainda haveria
tempo. Schäuble previu que os gregos só apresentariam um pedido de auxílio daqui a
duas ou três semanas.
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“Ativação do mecanismo de apoio”
Mas ele estava equivocado. Na última sexta-feira, o primeiro-ministro grego, George
Papandreou, tendo atrás de si a paisagem pitoresca da ilha mediterrânea de
Kastellorizo, anunciou que o seu país não conseguia mais rechaçar os ataques dos
especuladores financeiros internacionais e teria que solicitar ajuda dos seus parceiros
europeus.
Pouco tempo depois, um anúncio de apenas quatro linhas feito pelo ministro grego
das Finanças emergiu das máquinas de fax em Bruxelas. Na nota, os gregos pediam
a “ativação do mecanismo de apoio”.
Dificilmente as coisas poderiam ter evoluído de maneira pior – para a Grécia, a
Europa e o governo alemão.
Durante semanas, a chanceler Angela Merkel prometeu aos cidadãos que só
desembolsaria o dinheiro do contribuinte alemão para a Grécia como “último recurso”.
E, caso a assistência se tornasse necessária, disse Merkel, tentando tranquilizar os
membros do seu próprio partido, a Grécia não deveria receber nenhum pedido de
ajuda até meados de maio. Essa foi a forma encontrada por Merkel para deixar essa
questão sensível fora da campanha eleitoral importante no Estado da Renânia do
Norte-Vestfália, em 9 de maio.
Fracasso completo
Mas agora o pedido de ajuda por parte de Atenas deixou claro que a estratégia deMerkel para a Grécia fracassou completamente. O drama europeu envolvendo a
dívida governamental e os especuladores gananciosos não está se adequando aos
cronogramas nacionais. Enquanto o governo estadual da coalizão CDU/FDP na
Renânia do Norte-Vestfália teme perder a sua maioria parlamentar, a chanceler
enfrenta debates desagradáveis em Berlim.
Críticos da moeda comum europeia já deixaram claro que veem a ajuda emergencial
à Grécia como uma violação dos tratados europeus. Eles pretendem mover um
processo legal junto ao Tribunal Constitucional Federal da Alemanha na cidade de
Karlsruhe. Membros do CDU e do FDP no Bundestag, o parlamento da Alemanha,
advertem para os perigos da criação de uma “união europeia de transferências
monetárias”, algo que Merkel disse que deseja evitar de qualquer forma.
Mesmo dentro do governo Merkel, há temores de que a Alemanha possa terminar
arcando com grande parte da conta decorrente de um desastre financeiro grego.
Especialistas no gabinete dela suspeitam que muitos bilhões de euros poderia
desaparecer na enormidade da dívida de Atenas sem que o pior fosse evitado: uma
bancarrota grega e uma nova onda de especulação contra o euro.
Não é de se surpreender que o clima esteja tenso na coalizão governamental em
Berlim. O partido bávaro vinculado ao CDU, a União Social Cristã (CSU), está
exigindo que, em caso de dúvida, a Grécia saia da zona do euro. Já a chanceler
Merkel está determinada a pelo menos transmitir a impressão de que está
administrando as críticas dentro do seu governo.
Apertando os cintos
No final da semana passada, Merkel exigiu que, antes que os gregos recebam
qualquer dinheiro, eles primeiro apertem os cintos ainda mais. Mas será que isso seria
possível? Ou, se fizesse tal coisa, o país estaria sufocando o que restou da sua
arrasada economia? Será que os gregos algum dia poderão pagar a dívida
gigantesca, que já chegou a cerca de 300 bilhões de euros (US$ 405 bilhões, R$ 707
bilhões)?
Essa questão diz respeito também à reputação de Merkel e aos intensos temores dos
alemães. Merkel sabe que as preocupações com a inflação são mais profundas na
Alemanha do que em qualquer outra nação europeia. Na semana passada, o ministro
das Finanças, Schäuble, pôde presenciar pessoalmente as reações instintivas que
essa questão pode desencadear na Alemanha.
Na terça-feira, Schäuble tentou convencer os principais líderes do grupo parlamentar
CDU/CSU a pressionarem a Europa para prometer assistência financeira à Grécia por
meio do parlamento em medidas aceleradas de urgência. Ele propôs simplesmente
vincular as regulações aplicáveis a uma legislação já existente, de forma a evitar
debates contraproducentes no Bundestag.
Mas a ideia de Schäuble encontrou uma feroz oposição de membros do seu próprio
partido, o CDU, e do partido aliado, o CSU. “Será que nós sabemos sequer se os
gregos ainda estão solventes?”, questionaram os políticos do CSU. Membros do CDU
também manifestaram preocupações. Norbert Lammert, o presidente do Bundestag,
advertiu que a ajuda de emergência é demasiadamente importante para ser aprovada
precipitadamente no Bundestag. Lammert argumentou que uma legislação apropriada
necessitaria de uma segunda e uma terceira leitura diante dos membros do
parlamento.
Agora que a Grécia solicitou oficialmente ajuda, Schäuble terá que tentar uma nova
abordagem. Na segunda-feira desta semana, os ministros desejam reunir-se com os
presidentes dos partidos representados no Bundestag para discutir formas de elaborar
um pacote sobre a Grécia no parlamento da forma mais discreta possível.
Grandes reservas na Alemanha
O ministro não pode esperar nenhum apoio maciço – as reservas em relação à
medida nos outros partidos são simplesmente muito fortes. Em uma carta a Merkel,
Frank-Walter Steinmeier, o líder do Partido Social-Democrata (SPD), de centro
esquerda, deixou claro que as decisões sobre uma possível assistência financeira à
Grécia são de uma importância fundamental para o futuro da União Europeia”. “É por
isso que elas precisam ser amplamente discutidas no parlamento e decisões
responsáveis se fazem necessárias”. Steinmeier acrescentou que Schäuble deveria
“apresentar a proposta para discussão imediatamente, e preferivelmente nesta
semana”.
As preocupações não são nem um pouco menos significantes na coalizão de governo.
“Prosperidade e justiça social exigem uma moeda estável, mas nós não estamos
passando nenhum cheque em branco”, disse o líder do FDP, Guido Westerwelle,
falando em uma convenção do partido no domingo. A Grécia precisa colocar a sua
própria casa em ordem para que haja um início de processo, e uma ajuda só poderá
ser fornecida como último recurso para proteger a nossa própria moeda”. Vários
membros do FDP no Bundestag também deixaram claro nesta semana que têm sérias
dúvidas em relação ao bailout da Grécia.
Hans-Peter Friedrich, um político veterano do CSU, também expressou reservas: a
Grécia não enfrenta apenas um problema de liquidez, mas também um problema
fundamental de crescimento e estrutural”. Por este motivo, acrescentou Friedrich, o
país deveria “cogitar seriamente a sua saída da zona do euro”. “Essa iniciativa não
deveria ser considerada um tabu”, afirmou Friedrich.
O que torna a posição de Friedrich tão explosiva é o fato de alguns membros
conservadores do parlamento europeu compartilharem o ponto de vista dele. Um
deles, Werner Langen, diretor do grupo CDU/CSU no Parlamento Europeu, está
“extremamente cético quanto à ideia de que este pacote de auxílio respeite a lei da
União Europeia e a lei constitucional da Alemanha”. Langen acredita que a ajuda, no
valor de bilhões de euros, não trará nenhum benefício para os gregos no longo prazo.
“A alternativa real”, diz ele, “é a Grécia se retirar da união monetária e tornar-se mais
competitiva por meio da imposição de reformas estruturais estritas”.
Alto risco
Vastos segmentos do mundo profissional concordam com as críticas dos
“eurocéticos”. Poucos economistas estão convencidos de que a injeção pretendida de
bilhões de euros saídos dos cofres europeus e alemães serão capazes de curar os
males da Grécia. E, pior ainda, muitos críticos duvidam de que os fundos de socorro à
Grécia prometidos até o momento serão suficientes.
Os gregos precisarão tomar emprestado cerca de 130 bilhões de euros (R$ 304
bilhões) até o final de 2012, quando os empréstimos concedidos no atual pacote da
União Europeia vencerão. Entretanto, políticos vinham assumindo até agora que as
exigências financeiras do país não ultrapassariam os 80 bilhões de euros (R$ 187
bilhões). Mas essa quantia só seria suficiente até o final de 2011, o que significaria
que a Grécia teria que arrecadar o restante do dinheiro nos mercados financeiros.
Isso será difícil. Os principais economistas não acreditam que a taxa de risco sobre os
títulos do tesouro grego diminuirá apenas porque a União Europeia despejou dinheiro
sobre Atenas. Como resultado, as taxas de juros sobre os títulos gregos
permanecerão elevadas – o que significa que o Estado grego terá que arcar com um
grande fardo financeiro.
Portanto, a União Europeia terá que encorajar o país a seguir a rota da consolidação e
da reforma, diz o renomado economista Martin Hüfner, de forma que a Grécia possa
quitar as suas dívidas dentro de alguns anos.
Pouca confiança
Michael Heise, economista da seguradora multinacional Allianz, concorda. “O dinheiro
da União Europeia só ajudará os gregos no curto prazo”, diz ele. A questão
fundamental é saber como o país conseguirá quitar a sua dívida”.
Nem mesmo os próprios especialistas de Schäuble têm confiança total no pacote
europeu de bailout. Eles dizem que as elevadas taxas de risco nos mercados
demonstram que os investidores tem pouquíssima confiança nas medidas europeias.
Dois cenários de risco estão sendo atualmente discutidos pelos economistas. No
primeiro cenário, a Grécia iria à bancarrota e os seus empréstimos seriam suspensos,
estendidos ou reestruturados. No segundo cenário, o país seria forçado a retirar-se da
zona do euro, implementar uma reforma cambial e partir para um recomeço
econômico. Em ambos os casos, grandes parcelas do dinheiro do bailout europeu
seriam perdidas.
Já estão se fazendo paralelos com um outro enfrentamento histórico entre governos e
especuladores no início da década de noventa. Naquela época, o empresário de
fundos de hedge George Soros colocou o Banco da Inglaterra de joelhos, e a libra
esterlina britânica teve que ser retirada do sistema de moedas europeu que vigorava
naquele período.
“Correta e inevitável”
O mesmo cenário poderia desenrolar-se desta vez, ainda que os gregos, após o seu
pedido espetacular de ajuda na sexta-feira, estejam novamente falando de esperança.
O economista ateniense Yannis Stounaras, por exemplo, chama essa decisão de
“correta e inevitável”. O líder empresarial Dimitris Daskalopoulos vê o programa como
a “última chance da Grécia”, e afirma que o país não deveria interpretar as exigências
europeias “como uma penalidade”, mas sim como “uma terapia necessária”.
Desde a última quarta-feira, especialistas do FMI, do Banco Central Europeu e da
Comissão Europeia têm circulado pelo Ministério das Finanças em Atenas, avaliando
orçamentos, estudando obrigações e créditos e analisando os efeitos do programa de
austeridade sobre o governo grego. Os técnicos acreditam ser muito provável que
encontrarão aquele tipo de surpresa ocasional. Segundo especialistas, o topo da
montanha da dívida ainda não foi encontrado.
Na semana passada, a agência de estatística da União Europeia, a Eurostat, informou
que o déficit orçamentário da Grécia em 2009 era de 13,6% e não de 12,7%,
conforme anteriormente estimado. Isso coloca a Grécia em pé de igualdade com a
Irlanda, a detentora do recorde de déficits da Europa. E ainda não se enxerga no
horizonte um fim para o fluxo constante de más notícias.
“Praticamente falida”
A Eurostat já informou o ministro das Finanças da Grécia, George Papaconstantinou,
a respeito das “reservas” adicionais que o órgão tem em relação aos números
apresentados por ele, que preveem que o déficit do ano passado aumentará entre 0,3
e 0,5 pontos percentuais. Quando isso ocorrer, os gregos acharão muito difícil cumprir
aquilo que está previsto no programa de consolidação.
E se o crescimento econômico sofrer um revés intenso devido às medidas de
austeridade rígidas, algo que é de se temer, os planos não surtirão efeito algum, diz o
proeminente economista alemão Hans-Werner Sinn.
“A Grécia está praticamente quebrada”, diz Sinn, que é diretor do Instituto Ifo, com
sede em Munique. Segundo ele, as consequências serão colocar os países que estão implementando a operação de resgate “sob pressão” cedo ou tarde, o que
possivelmente incluiria até mesmo a Alemanha, que encontra-se supostamente
solvente. “Nós já temos uma relação de dívida de 73%”, adverte Sinn. “Estamos em
uma corda escorregadia, e ela ficará ainda mais escorregadia”.